COISAS QUE UM FALSO INTELECTUAL PRECISA SABER ANTES DE FAZER UM CURSO NA USP
-Sinta um pouco de vergonha quando estacionar seu carro na porta do prédio. Pseudo renegar bens é meio caminho andado a pé pra fazer amigos. (Ainda que eles não tenham casa na praia e nem cheguem na sua festa com sacolinhas de presentes, fazer amigo é sempre bom).
-Se você tiver o mínimo de bom senso estético desista de encontrar sua alma gêmea num curso da faculdade de letras (isso serve para os prédios vizinhos). Aliás, até com mau gosto é capaz que você se choque um pouco. Olá tamanco com unhas cintilantes! Olá regata com peito peludo! Olá calça de moletom com bata! Olá salto anabela de rolha de pinga! Olá alça de silicone! Olá bolsos com coração de strass!
-Alguns grupos pequenos de mulheres histéricas com problemas pra ter orgasmo vão sorrir pra você. Amigas? Não, elas estão aplicando alguma teoria do Sedes Sapientiae no contato rápido e não verbal com civis. Fuja enquanto você consegue correr sem achar que é sequela da infância!
-Por mais pizzas que ele tenha na axila, sim, o professor músico literato número 1 do Brasil é o maior gato. Mas ele não está olhando pra você, ele está olhando através de você. Os intelectuais te penetram de outra forma, infelizmente.
-Tente não vomitar toda vez que uma pessoa deslumbrada com o Lacan começar uma frase com “isso é da ordem do…”. E não se sinta mal por ser o único ser do planeta que não tem a psicanálise como segunda profissão por uma simples razão: daqui a pouco você terá também.
-Existe uma única pessoa mais intelectual do que o master intelectual de Recife: é o master intelectual carioca. Claro, porque se o cara renegou a cidade maravilhosa pra estudar daquele jeito, ele fez direito. Ah, e quando um desses começar a falar, repare como todos os outros apertam os olhos sabiamente. O nome científico para isso é sonus profundus.
-Quando o ultra intelectual de Recife parar de brigar com o blaster intelectual carioca e você achar que está tudo bem, tenha coragem: é a vez do paulistano que leva o “r” a lugares antes só desbravados pelo tio avô do Chico Bento. (e se por algum instante você se esquecer que cazzo está fazendo no meio de tanta gente inteligente, lembre-se que chatos são os paulistanos nasalados que discutem a balada do momento no banheiro da Daslu). Siga em frente.
-Não é igreja e pega bem não acreditar em Deus. Mas todo mundo faz que sim carolamente quando alguém, fingindo não dizer, diz subjetivamente que tá muito calor pra falar “daquela pessoa que odiamos”. (e depois de uns meses você sabe que trata-se do FHC- mas nunca diz que sabe porque pega bem só sorrir e deixar no ar porque odiar é coisa de burguês que pode se dar a “esse luxo”).
-Sim, você vai sentar colada com a pessoa da frente, do lado e do outro lado e de trás. Claustrofobia é coisa de gente que usa pomada na franja, higieniza mensalmente o ar condicionado próprio e frequenta a Casa do Saber. Seja humano uma vez na vida! (aqui tô dizendo isso pra mim)
-Eles moraram em Paris, baby. Dá pra acreditar que não aprenderam nada sobre cheiros e combinações de cores e tecidos? Osmose é coisa de direita. (e sim, dá pra se vestir sem enfartar a Glorinha Kalil sendo pobre e tendo nascido em bairro simples, eu sou a prova viva disso. Uma calça com camiseta na Hering sai tudo por setenta reais em cinco vezes sem juros. O que não dá é pra aturar renda trabalhada em tule com saia de lã e bota de camurça em pleno dezembro 89 graus).
-Antes de enfrentar o xerox nos intervalos, fique amigo de alguma idosa sapatona. Ela vai te conseguir descontos, bons lugares na fila e dicas exclusivas tipo “essa apostila tem na internet, no site doutorandos.org.PT”. Quando você falar merda na aula, perceba como só ela te sorri maternalmente. Ter uma amiga idosa sapatona na USP é a versão decote pro chefe no mundo real.
-Quando todo mundo começar a contar piadas em alemão ou francês e rir muito e você não entender um cazzo e ficar sério, apenas diga “essa é velha, hein”.
-Acostume-se com as lutas minorias-específicas tipo: os albinos de Mococa não querem mais suco de uva, afinal, senhores feudais modernos estão pisando nas uvinhas só porque elas são negras! Com o tempo você vai conseguir ler sobre isso nas paredes sem procurar as câmeras da pegadinha do Malandro. Há!
-Acostume-se com o fato de que, por mais cínico e apaixonado pelo cartão de crédito que você seja, vai acabar se emocionando quando encontrar o Bosi ou o Antônio Cândido pelos corredores. Você está no melhor lugar de São Paulo.
Vá conhecer a livraria João Alexandre Barbosa, no prédio da Editora da Universidade de São Paulo, a Edusp. Fica ao lado da famosa Praça do Relógio, na Cidade Universitária.
Tel 3091-4156, 2ª/6ª das 9h/21h e sáb das 10h/15h, Cc: D, M, V, Cd: todos.
Essa quinta agora começa uma feira com descontos de até 50% em livros bacanudos.
Tati Bernardi