Feb
02

COISAS QUE UM FALSO INTELECTUAL PRECISA SABER ANTES DE FAZER UM CURSO NA USP

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-Não saia de casa sem saber a diferença entre retórica e dialética. É tipo sair sem calça. Manja o pesadelo?

-Sinta um pouco de vergonha quando estacionar seu carro na porta do prédio. Pseudo renegar bens é meio caminho andado a pé pra fazer amigos. (Ainda que eles não tenham casa na praia e nem cheguem na sua festa com sacolinhas de presentes, fazer amigo é sempre bom).

-Se você tiver o mínimo de bom senso estético desista de encontrar sua alma gêmea num curso da faculdade de letras (isso serve para os prédios vizinhos). Aliás, até com mau gosto é capaz que você se choque um pouco. Olá tamanco com unhas cintilantes! Olá regata com peito peludo! Olá calça de moletom com bata! Olá salto anabela de rolha de pinga! Olá alça de silicone! Olá bolsos com coração de strass!

-Alguns grupos pequenos de mulheres histéricas com problemas pra ter orgasmo vão sorrir pra você. Amigas? Não, elas estão aplicando alguma teoria do Sedes Sapientiae no contato rápido e não verbal com civis. Fuja enquanto você consegue correr sem achar que é sequela da infância!

-Por mais pizzas que ele tenha na axila, sim, o professor músico literato número 1 do Brasil é o maior gato. Mas ele não está olhando pra você, ele está olhando através de você. Os intelectuais te penetram de outra forma, infelizmente.

-Tente não vomitar toda vez que uma pessoa deslumbrada com o Lacan começar uma frase com “isso é da ordem do…”. E não se sinta mal por ser o único ser do planeta que não tem a psicanálise como segunda profissão por uma simples razão: daqui a pouco você terá também.

-Existe uma única pessoa mais intelectual do que o master intelectual de Recife: é o master intelectual carioca. Claro, porque se o cara renegou a cidade maravilhosa pra estudar daquele jeito, ele fez direito. Ah, e quando um desses começar a falar, repare como todos os outros apertam os olhos sabiamente. O nome científico para isso é sonus profundus.

-Quando o ultra intelectual de Recife parar de brigar com o blaster intelectual carioca e você achar que está tudo bem, tenha coragem: é a vez do paulistano que leva o “r” a lugares antes só desbravados pelo tio avô do Chico Bento. (e se por algum instante você se esquecer que cazzo está fazendo no meio de tanta gente inteligente, lembre-se que chatos são os paulistanos nasalados que discutem a balada do momento no banheiro da Daslu). Siga em frente.

-Não é igreja e pega bem não acreditar em Deus. Mas todo mundo faz que sim carolamente quando alguém, fingindo não dizer, diz subjetivamente que tá muito calor pra falar “daquela pessoa que odiamos”. (e depois de uns meses você sabe que trata-se do FHC- mas nunca diz que sabe porque pega bem só sorrir e deixar no ar porque odiar é coisa de burguês que pode se dar a “esse luxo”).

-Sim, você vai sentar colada com a pessoa da frente, do lado e do outro lado e de trás. Claustrofobia é coisa de gente que usa pomada na franja, higieniza mensalmente o ar condicionado próprio e frequenta a Casa do Saber. Seja humano uma vez na vida! (aqui tô dizendo isso pra mim)

-Eles moraram em Paris, baby. Dá pra acreditar que não aprenderam nada sobre cheiros e combinações de cores e tecidos? Osmose é coisa de direita. (e sim, dá pra se vestir sem enfartar a Glorinha Kalil sendo pobre e tendo nascido em bairro simples, eu sou a prova viva disso. Uma calça com camiseta na Hering sai tudo por setenta reais em cinco vezes sem juros. O que não dá é pra aturar renda trabalhada em tule com saia de lã e bota de camurça em pleno dezembro 89 graus).

-Antes de enfrentar o xerox nos intervalos, fique amigo de alguma idosa sapatona. Ela vai te conseguir descontos, bons lugares na fila e dicas exclusivas tipo “essa apostila tem na internet, no site doutorandos.org.PT”. Quando você falar merda na aula, perceba como só ela te sorri maternalmente. Ter uma amiga idosa sapatona na USP é a versão decote pro chefe no mundo real.

-Quando todo mundo começar a contar piadas em alemão ou francês e rir muito e você não entender um cazzo e ficar sério, apenas diga “essa é velha, hein”.

-Acostume-se com as lutas minorias-específicas tipo: os albinos de Mococa não querem mais suco de uva, afinal, senhores feudais modernos estão pisando nas uvinhas só porque elas são negras! Com o tempo você vai conseguir ler sobre isso nas paredes sem procurar as câmeras da pegadinha do Malandro. Há!

-Acostume-se com o fato de que, por mais cínico e apaixonado pelo cartão de crédito que você seja, vai acabar se emocionando quando encontrar o Bosi ou o Antônio Cândido pelos corredores. Você está no melhor lugar de São Paulo.

Vá conhecer a livraria João Alexandre Barbosa, no prédio da Editora da Universidade de São Paulo, a Edusp. Fica ao lado da famosa Praça do Relógio, na Cidade Universitária.

Tel 3091-4156, 2ª/6ª das 9h/21h e sáb das 10h/15h, Cc: D, M, V, Cd: todos.

Essa quinta agora começa uma feira com descontos de até 50% em livros bacanudos.

Tati Bernardi

Jan
30

EU ETIQUETA

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Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou – vê lá – anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drumond de Andrade

Jan
25

PEDAÇO DE MIM

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Ó pedaço de mim, ó metade afastada de mim
Leva o teu olhar, que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento, é pior do que se entrevar.

Ó pedaço de mim, ó metade exilada de mim
Leva os teus sinais, que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais.

Ó pedaço de mim, ó metade arrancada de mim
Leva o vulto teu, que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.

Ó pedaço de mim, ó metade amputada de mim
Leva o que há de ti, que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada no membro que já perdi.

Ó pedaço de mim, ó metade adorada de mim
Lava os olhos meus, que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo a mortalha do amor, adeus.

(1977-1978)

Chico Buarque

Jan
23

OS CONTRÁRIOS UNIDOS EM MIM

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Sinto-me arrebatado, abatido por dois movimentos contrários, eu me dizia: não, o homem não é apenas um: eu quero e eu não quero, eu me sinto simultaneamente escravo e livre; eu observo o bem, eu amo e pratico o mal; eu sou ativo quando escuto a voz da razão, passivo quando minhas paixões me conduzem; e o meu pior tormento, quando sucumbo, é sentir que teria podido resistir…

Mas minha vontade é independente de meus sentidos; eu consinto ou eu resisto, eu sucumbo ou eu sou vencedor e eu sinto perfeitamente em mim mesmo quando eu faço o que sinto que de fato quis ter feito ou quando eu apenas cedo às minhas paixões. Eu tenho sempre o poder de desejar, nem sempre a força de executar.

Quando eu me entrego às tentações, eu ajo sob o impulso de objetos externos. Quando eu recuso essa fraqueza, é porque estou a escutar minha vontade; eu sou escravo pelos meus vícios e livre pelos meus remorsos.

Jan
03

DIZ NOS MEUS OLHOS

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Pensei
Que haveria um pouco mais
De amor para mim
Guardei
Cada luar
Cada verso encoberto
Nas notas da canção

Pra que
Se um vazio me esperava
E eu não percebi
Devolve meus dias
Minha alegria
Diz nos meus olhos
Verdades ruins
(Esse é o refrão)

Que não foi bom rimar
Cada carinho que eu fiz
Que a minha voz cantada
Nem soa tão bem
Que os nossos sonhos
Foram pesadelos
Enfim,
Mas pelo menos
Fala pra mim

Esse silêncio
É que me atordoa
Se foi tudo à toa
Volta e me deixa
Me recolho,volto ao meu mundo
O que é só meu
Tem que voltar pra mim

Me lembro quando
Você passou
Era um dia tão claro de sol
Pensei:”Meu Deus,
É um sonho!”
Meu coração feito louco
Batuque

Por isso agora
Não me machuque
Vou te guardar como
Triste lembrança
Ninguém jamais vai me
Enganar outra vez
Eu prometo à vocês

Zélia Duncan

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